01 — INÍCIO
Eu nasci em 1982. O bebê dessa foto ainda não sabia de nada.
Cresci num Brasil de TV de tubo e antena ajustada na mão, e ia levar a vida inteira pra aprender o que de fato importava. Esta é a minha história — e, em alguns trechos, talvez seja um pouco a sua também.
1982–1990 · O PRIMEIRO BOOT
O quarto era pequeno. A imaginação não tinha fim.
Sem irmãos, a imaginação virou o processador central — rodava o dia inteiro, preenchendo cada vazio. A TV ligava e o quarto enchia: à esquerda os desenhos, à direita uma parede de heróis. Jaspion, Changeman, Kamen Rider não eram passatempo. Eram código moral — me ensinaram a única regra que sobreviveu a tudo: cair faz parte; o que conta é levantar.
Lá fora, a rua era meu ambiente de testes. No asfalto eu media a física na pele: o guidão da bicicleta, o tombo do skate, a velocidade contra o medo. No controle do videogame, com os amigos, eu treinava a lógica mais difícil de todas — a das conexões humanas. No centro de tudo, um menino com uma guitarrinha de brinquedo, sem saber que já ensaiava construir mundos. Era ruído. Era cru. E era meu.
2000 · APRENDER A OUVIR
Em 2000, aos 18, eu passava o dia inteiro atendendo gente perdida na internet discada.
Não foi meu primeiro emprego — aos 16 eu já auditava lojas num shopping, estágio do curso técnico. Mas foi ali, na linha, que descobri o que carrego até hoje: quase nunca o problema era técnico. Antes de tentar resolver, era preciso escutar a pessoa do outro lado.
Sem perceber, eu não estava só aprendendo a consertar máquina. Estava treinando a paciência que a vida ia me cobrar muito depois.
2004
Em abril, eu perdi meu pai.
Filho único, amadureci de uma vez. Aprendi a dirigir, vendi o carro dele, comprei o meu primeiro com o salário daquele ano. A vida não esperou eu ficar pronto — e nunca espera. Naquele momento, eu só sabia uma forma de seguir: sozinho. Levaria mais de uma década pra descobrir que existia outra.
2005 · A ENTREGA
Eu me formei em Sistemas de Informação, com especialização em logística. Mas o curso de verdade aconteceu fora da sala.
Foram anos de trabalho de dia e estudo à noite, e nas frestas a luta pra não desabar. Acumulei matérias atrasadas como gargalos numa linha que nunca para — e paguei cada uma sacrificando férias inteiras. Eu não estudei logística só no quadro-negro: era a carga atravessando o gargalo.
No ano anterior, eu tinha perdido meu pai — e, pra ele, estudo era a coisa mais valiosa que existia. Quando subi pra pegar o diploma, foi a única entrega que importava. Ele não chegou a vê-la. Quem segurava o peso comigo, ao meu lado na foto, era minha mãe.
2009 – 2011 · A FUNDAÇÃO
Em 2009, conheci o amor da minha vida — e foi ela que mudou tudo de lugar.
Em 2011, casei. Paguei a festa com as férias que nunca tirei e o bônus que vendi; a lua de mel foi curta — escolha nossa — e ainda assim inteira.
Prioridade não é o que a gente diz; é o que a gente faz, e o quanto abre mão. Ali assentei a fundação mais importante da minha vida — e ela não era de software. Era de gente: alguém com quem valia a pena dividir o peso e o resto do caminho. Esse amor é, até hoje, o alicerce da minha família.
2012 · A VIRADA DE VETOR
Até aqui, eu media a vida em velocidade. Então minha filha nasceu — e o vetor de força inteiro mudou de direção.
Eu era um sistema afinado para vencer. E todo sistema no pico está, no mesmo gesto, afinado para quebrar. De um dia para o outro, a métrica deixou de ser velocidade e virou durabilidade: parei de querer ser rápido. Quis ser fundação.
Troquei a corrida pela raiz — fui buscar estabilidade e me enterrei no trabalho pra proteger o que agora importava. (Sem perceber, plantei ali a semente do esgotamento que viria.) Pela primeira vez, a vida tinha um motivo para durar.
2016 · A CASA CHEIA
Em 2016 vieram dois de uma vez. A alegria passou a chegar em dobro — e o peso também, ainda que eu não admitisse.
Vestimos um deles de ctrl + c e o outro de ctrl + v. A casa inteira ria, e eu ria junto. Mas, no meio da bagunça boa, eu já carregava mais do que cabe num homem só — e fingia que dava conta. Como sempre.
JANEIRO · 2017
No começo de 2017, a conta venceu toda de uma vez. Minha mulher internada, dois bebês em casa, anos de coisa engolida — e o corpo cobrou: acordei com tufos de cabelo no travesseiro.
A alopecia levou meu cabelo por um ano inteiro. Mas me deixou o que carrego até hoje: nenhuma dose de esforço sustenta uma vida se a saúde fica de fora da conta. Cuidar da família e cuidar de mim são o mesmo equilíbrio — e ele se refaz todo dia.
HOJE · 2026
Por muito tempo, eu fui o ponto de apoio de todos — e, sozinho, o ponto único de falha.
Hoje é diferente. Minha mulher, que começou como analista e virou empresária. E uma família querida que cresceu ao redor — laços fortes, gente que está sempre por perto, uma rede de apoio e de amor. O time que aprendi a formar, em vez de carregar nas costas. Quando a vida aperta — e ela aperta —, o peso não cai mais sobre um ponto só. Cai sobre uma rede inteira. E rede divide.
Aprendi tarde uma coisa que o bambu sabe desde sempre: ele não cresce reto, nem de uma vez. Cresce em nós — para em cada um, ganha força, e segue.
CONTINUA
Só muito depois encontrei três palavras japonesas para o que eu já tinha vivido sem saber nomear.
- 職人Shokunin — o ofício como caminho de aperfeiçoar-se.
- 金継ぎKintsugi — a fratura preenchida com ouro vira a parte mais bela.
- 竹Take — o bambu que verga sem quebrar, e nunca para de crescer.
Mas elas vieram depois. Primeiro veio a vida.